quinta-feira, 23 de abril de 2009

a Ela

amar é lado
é elo
é alado

terça-feira, 21 de abril de 2009


Essa chuva que não me deixa dormir mas me imersa na sua tranquilidade
me refresca e me esfria fazendo procurar o cobertor.
a chuva: irmã gota-irmã, a parte e o todo.
torço pra que esteja chovendo em toda cidade, um manto cobrindo a todos.
através da chuva imagino uma onipresença, e penso numa pessoa
escutando, vendo e até sentindo a mesma água, e sei que ela está vivendo, ao menos em parte, a mesma coisa que eu
(neste momento em mim, a imaginação é tentação e desejo: mil coisas, um lugar, uma pele, o cheiro e minha solidão, que me faz voar e ao mesmo tempo me prega, me cola neste quarto de paredes brancas, quadros coloridos, duas portas cinzas e uma grande janela aberta sobre mim, como asas: a janela são asas.
abdico mentalmente de todos esses desejos, mas não sou só mente, o corpo fala.
(a chuva continua)
um quadro na parede exala um calor úmido, fértil, enquanto o outro, um calor seco, vasto.
o branco imenso da parede apaga os dois, a chuva na noite escura acende os tres e a minha solidão acolhe os quatro, e muito mais.
(a chuva criou riachos)
a chuva expulsou para a luz do meu quarto uma nuvem de insetos,
que serão meus companheiros nessa noite. para eles não existe propriedade, apenas espaço.
impressionante: estou em um lugar que não estou, ou não sei o quanto estou.
sentimento-hotel
fuga ou busca?
( a chuva virou cachoeira)
(o que só aumenta meu devaneio de amor)
...
Amanheci
a luz amarela da lâmpada deu lugar a luz branda desse dia chuvoso
( a chuva agora é cachoeira caudalosa de rio antigo)
eu acordei como continuação de mim mesmo e a chuva como continuação dela mesma em mim mesmo.
porque a chuva invoca tantas memórias, tantos sentidos?
essa chuva, de hoje, é idêntica aquela chuva de quando eu era criança, parece a mesma chuva, da mesma água, com o mesmo nome, essa chuva é uma revolta da percepção.
Tudo fica mais si mesmo num dia de chuva, o sol já não explode nem expande as cores, todos os objetos, plantas,coisas ficam reduzidos na sua dimensão exata, plantadas no lugar onde estão, sozinhos, acalmados no seu próprio eu; a terra se faz mais vista, se faz repouso ativo, brotando cada planta no seu momento único, sustentando cada ser na sua vivência única.
É difícil uma chuva que não traga um mínimo de frio. durante a chuva( que salpica minha pele com gotas frias pela janela) o desejo é de me unir, acalorar, juntar os fluidos, os olhos , os sabores aos de outra pessoa e até sair pro quintal e tomar um banho, abrir os braços, olhar pro céu, dar ao corpo ser lavado, com água primordial, ser natureza enraizada no momento agora.
meu quarto agora é um vazio, e toda a casa um vazio de lar, só o verde das árvores me penetram, ou me assemelham, como se eu fosse por dentro o mesmo verde da mesma matéria querendo ser avesso pra ser na chuva como as árvores. dentro de mim agora existe uma cachoeira, pedras e mata fechada, ela é cristalina e não muito grande, mas do tamanho necessário pra me banhar com fartura e até muito me espantar com a sua potência.
não estou sozinho, ou melhor, sei que estou sozinho nessa casa, já fui até a varanda que fica ao lado de uma pequena floresta, olhei a chuva, as plantas com o verde concentrado e o movimento ininterrupto, o cinza-branco do céu refletido nas folhas molhadas, voltei, olhei (olho) pelas janelas que dão para a cidade, que é pura vida, imaginada, pois todos estão em casa e vejo apenas pouquíssimas pessoas, algumas luzes ainda acesas, os apartamentos, as árvores: cada ponto uma riqueza. em frente a minha janela tem um quintal que parece uma roça: uma casinha de sapê, telhado de calha, e uma imensidão de plantas no terreiro, o chão de terra. quanto a cidade, pareço ser íntimo, e alheio ao mesmo tempo. será que consigo olhar pra todas essas casas e suas possibilidades com o alheamento necessário? real? talvez. mas desejo um pouquinho de cada, um espaço de cada, um toque de cada, por isso é difícil, mas vejo ser necessário, trazer pra cá toda a riqueza do meu lugar aqui, agora, fazer dele o melhor e mais possível dos lugares, o meu templo e minha porta, de movimento, meu incenso que exala ouro. hoje, agora, é muito bom que as parabólicas da paisagem estejam de costas pra mim, alheias, como robôs captando outras friezas tão diferentes dos meus inflamáveis desejos.
(a chuva continua)
tudo isso: sentimento de mata adentro, elemento primordial: espaço, ar. natureza, voo além da cidade que só oferece cimento e fumaça, compartimentos modulados e raras ruínas.
ruínas: foram os olhos, os toques, os passos que a fizeram, que a moldaram. as ruínas não são a falta de elementos, a ausência, o vazio, mas sim o excesso, o grande excesso de vida de toque de tempo.
hoje, nessa chuva, a cidade parece tão viva e mitológica quanto as ruínas, com apenas indícios, vestígios e luzes(pontos) pulsantes, quase alagada, na altura certa, por essa chuva monumental.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

poesia

Deixa falar todas as coisas visíveis
deixa falar a aparência das coisas que vivem no tempo
deixa, suas vozes serão abafadas.
A voz imensa que dorme no mistério sufocará a todas.
Deixa, que tudo só frutificará
na atmosfera sobrenatural da poesia.


João Cabral de Melo Neto

veramos

a Pedro


escrever
na noite
o silêncio é tinta.
e pinta
minha pele toda
com hieróglifos de amor-distante.
já não resta nada.
agora, nem o barulho do ventilador.
a fumaça sumiu no ar de dez minutos atrás
e na varanda, mínima, ficou a impresença.
os vestígios vão como fio de luz
que aos poucos na noite sórdida
apagou o último rastro de memória.
será que minha carne se lembrará do cheiro?
será que o cheiro se lembrará da carne?
hoje, cada objeto no seu lugar.
o frio já não existe como poesia,
e a mulher saiu como se fosse outra,
outra que sempre tivera sido outra
e nos olhos o estupor de não ter sido ela; algo dela.
em meu terreno a se adentrar.
florestas tropicais
desertos e rios e aflúvios e praias e olhos e vento e ar
tudo na cartografia delirante
de um corpo movente.
e meus pelos se lembravam de ti.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

ele, na noite, da foguera

a Alberto

eis que a rosa se deita
caliente, silente
bem em frente a janela de sua alma.
como crer e decifrar
essa beleza infinda porque incompleta?
ser da cor de suas asas o âmago de seu desejo
e ser de dentro essa amplitude de paisagem
que derrama em seu sertão
toda vertigem de oásis cálido, molhado.
eu ví como vagavas de olhos abertos
no devaneio dos mundos de amor
e voando, se fazia nu
vestindo apenas fantasias de um corpo sedento,
fazendo apenas melodias incertas e precisas
quando seguia expandindo os espaços de meus horizontes secos.
eis que se chega em uma fonte
tão escondida que revelada, pois desejada ardentemente,
e jorrava até milhões de espaços além de teus olhos.
e ví o rastro dessa fonte selvagem, senti seu cheiro,
em pleno mar. e olhava para as montanhas.
tão distantes que seria possível?
e escorre o fio de água doce,uma poça, pura cristalina
iluminada pelo sol dentro dos olhos do homem amante,
que hoje se faz homem, que descobriu na noite
e no calor, movimento do fogo
vencendo medo e vontade de morte, bebendo fogo tão íntimo,
o que é vir a ser o homem, um homem.
nas canções que perpassam amores
de planta nascida em sertão ardente
eis que brilha uma estrela
e de longe te marca na pele, com fogo,
o brilho de saber-se um, uno.
ah! olhos de cosmos
vida de vento
fogo de ar...
o menino saboreando a fruta
sem saber que a fonte infinda
e o sabor da manhã eram a própria vida
inteira e íntima e desconhecida,
que virou quintal a árvore e a respiração.
volta a noite pro coração do homem
que é onde as estrelas brilham
e o medo um vácuo de nada existir
e espaço e surdez e vazios
vagando errantes e solitários.
que pedra que voa!
que ar ao redor!
dessa noite tão incógnita e vasta e pura.
e vasto no coração do homem.
ele acorda,
vê o pássaro
deitada no botão do dia,
e viu que era manhã cedo
e a música que tocava era da aurora dos dias
e viu que tinha café, pão e fruta
e viu que a vida realmente acontecia
dentro e móvel
do seu âmago mais profundo
querido e desejado.
abriram-se o dia e a noite
só que agora
já não era vasta e vazia e horrenda
mas sim, o deitar na pétala de uma flor
e ser o tempo
como se todas as estrelas brilhassem
no seu peito agora.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

alguma coisa
baseado
na calma
pra extinguir palavras
pra saciar movimentos
pra deixar apenas ser
dos olhos, a mente do momento.