terça-feira, 21 de abril de 2009


Essa chuva que não me deixa dormir mas me imersa na sua tranquilidade
me refresca e me esfria fazendo procurar o cobertor.
a chuva: irmã gota-irmã, a parte e o todo.
torço pra que esteja chovendo em toda cidade, um manto cobrindo a todos.
através da chuva imagino uma onipresença, e penso numa pessoa
escutando, vendo e até sentindo a mesma água, e sei que ela está vivendo, ao menos em parte, a mesma coisa que eu
(neste momento em mim, a imaginação é tentação e desejo: mil coisas, um lugar, uma pele, o cheiro e minha solidão, que me faz voar e ao mesmo tempo me prega, me cola neste quarto de paredes brancas, quadros coloridos, duas portas cinzas e uma grande janela aberta sobre mim, como asas: a janela são asas.
abdico mentalmente de todos esses desejos, mas não sou só mente, o corpo fala.
(a chuva continua)
um quadro na parede exala um calor úmido, fértil, enquanto o outro, um calor seco, vasto.
o branco imenso da parede apaga os dois, a chuva na noite escura acende os tres e a minha solidão acolhe os quatro, e muito mais.
(a chuva criou riachos)
a chuva expulsou para a luz do meu quarto uma nuvem de insetos,
que serão meus companheiros nessa noite. para eles não existe propriedade, apenas espaço.
impressionante: estou em um lugar que não estou, ou não sei o quanto estou.
sentimento-hotel
fuga ou busca?
( a chuva virou cachoeira)
(o que só aumenta meu devaneio de amor)
...
Amanheci
a luz amarela da lâmpada deu lugar a luz branda desse dia chuvoso
( a chuva agora é cachoeira caudalosa de rio antigo)
eu acordei como continuação de mim mesmo e a chuva como continuação dela mesma em mim mesmo.
porque a chuva invoca tantas memórias, tantos sentidos?
essa chuva, de hoje, é idêntica aquela chuva de quando eu era criança, parece a mesma chuva, da mesma água, com o mesmo nome, essa chuva é uma revolta da percepção.
Tudo fica mais si mesmo num dia de chuva, o sol já não explode nem expande as cores, todos os objetos, plantas,coisas ficam reduzidos na sua dimensão exata, plantadas no lugar onde estão, sozinhos, acalmados no seu próprio eu; a terra se faz mais vista, se faz repouso ativo, brotando cada planta no seu momento único, sustentando cada ser na sua vivência única.
É difícil uma chuva que não traga um mínimo de frio. durante a chuva( que salpica minha pele com gotas frias pela janela) o desejo é de me unir, acalorar, juntar os fluidos, os olhos , os sabores aos de outra pessoa e até sair pro quintal e tomar um banho, abrir os braços, olhar pro céu, dar ao corpo ser lavado, com água primordial, ser natureza enraizada no momento agora.
meu quarto agora é um vazio, e toda a casa um vazio de lar, só o verde das árvores me penetram, ou me assemelham, como se eu fosse por dentro o mesmo verde da mesma matéria querendo ser avesso pra ser na chuva como as árvores. dentro de mim agora existe uma cachoeira, pedras e mata fechada, ela é cristalina e não muito grande, mas do tamanho necessário pra me banhar com fartura e até muito me espantar com a sua potência.
não estou sozinho, ou melhor, sei que estou sozinho nessa casa, já fui até a varanda que fica ao lado de uma pequena floresta, olhei a chuva, as plantas com o verde concentrado e o movimento ininterrupto, o cinza-branco do céu refletido nas folhas molhadas, voltei, olhei (olho) pelas janelas que dão para a cidade, que é pura vida, imaginada, pois todos estão em casa e vejo apenas pouquíssimas pessoas, algumas luzes ainda acesas, os apartamentos, as árvores: cada ponto uma riqueza. em frente a minha janela tem um quintal que parece uma roça: uma casinha de sapê, telhado de calha, e uma imensidão de plantas no terreiro, o chão de terra. quanto a cidade, pareço ser íntimo, e alheio ao mesmo tempo. será que consigo olhar pra todas essas casas e suas possibilidades com o alheamento necessário? real? talvez. mas desejo um pouquinho de cada, um espaço de cada, um toque de cada, por isso é difícil, mas vejo ser necessário, trazer pra cá toda a riqueza do meu lugar aqui, agora, fazer dele o melhor e mais possível dos lugares, o meu templo e minha porta, de movimento, meu incenso que exala ouro. hoje, agora, é muito bom que as parabólicas da paisagem estejam de costas pra mim, alheias, como robôs captando outras friezas tão diferentes dos meus inflamáveis desejos.
(a chuva continua)
tudo isso: sentimento de mata adentro, elemento primordial: espaço, ar. natureza, voo além da cidade que só oferece cimento e fumaça, compartimentos modulados e raras ruínas.
ruínas: foram os olhos, os toques, os passos que a fizeram, que a moldaram. as ruínas não são a falta de elementos, a ausência, o vazio, mas sim o excesso, o grande excesso de vida de toque de tempo.
hoje, nessa chuva, a cidade parece tão viva e mitológica quanto as ruínas, com apenas indícios, vestígios e luzes(pontos) pulsantes, quase alagada, na altura certa, por essa chuva monumental.

2 comentários:

Camilla Rhodes disse...

Nossa!
Tanta emoção nesse texto... eu senti o ritmo da respiração, ouvi a chuva e senti o frio.

tomazmusso disse...

Maravilha Camila, é bom saber que alguém sentiu o texto. :)